sábado, 4 de junho de 2011

Breves notas sobre o “Retrato de Mónica” de Sophia de Mello Breyner

De acordo com o título, o Retrato de Mónica não é propriamente narrativo, mas descritivo. É um texto dominado pela hipérbole e pela ironia.


Ao contrário do que parece sugerir o ambíguo início do conto, a narradora tem perante a protagonista uma atitude muito negativa; Mónica é realmente um compêndio da maldade.


Ao recusar os três valores determinantes da poesia, amor e santidade, ela fica sem coração e torna-se uma impressionante máquina ao serviço da projecção social da sua figura.


Manipula o marido e redu-lo a um apêndice seu; torna-o um nulo, em vez de o valorizar.


Pratica obras de caridade porque parece bem, sem se interrogar porque é que as crianças a quem as suas obras de tricot são destinadas já morreram antes de receberem essa roupa.


Mónica tem uma relação muito particular com o Príncipe deste Mundo. Nem admira.


A expressão Príncipe deste Mundo tem origem no Evangelho de S. João (caps. 12, 14 e 16), onde designa o Diabo, o primeiro responsável por toda a maldade do mundo. Já se vê pois que o Príncipe deste Mundo do conto é uma figura em que a narradora concentra todo o mal. É a versão masculina e superlativada de Mónica.


O Príncipe deste Mundo corresponde sem dúvida ao Homem Importante de O Jantar do Bispo, primeira história da colecção dos Contos Exemplares.


Pela duríssima e exagerada ironia, o Retrato de Mónica aparenta-se com o poema da mesma Sophia As pessoas sensíveis.

10 comentários:

  1. Não acho este resumo estupido, muito pelo contrario, muito bem explicado, até porque não é um conto de fácil análise.
    A mim ajudou imenso (:
    Obrigada,
    Laura Silva

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  2. Gostei imenso, uma das minhas interpretações favoritas deste conto.

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  3. O Príncipe Deste Mundo representa António de Oliveira Salazar e Mónica representa Cecília Supico Pinto. Acho que este é um aspecto fundamental, a ter em conta quando se realiza um resumo sobre o conto "Retracto de Mónica". Clara Rocha clarifica todos estes aspectos no seu trabalho "Para Uma Leitura Dos Contos Exemplares".

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    1. Bernardo Faria, o ponto de vista que expões simplifica muito as coisas e de algum modo mata a literariedade do conto. Uma coisa poderá ter sido uma sugestão recebida, outra a polissemia da narrativa.

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  4. Através de Mônica, sophia de mello breyner quis-nos mostrar que existe um lado bom e outro menos bom, ou seja, existe uma Mônica em cada um de nós. A forma como lidamos com esses dois lados da nossa personalidade é que nos define enquanto ser humano e faz cada um de nós um ser diferente e distinto dos outros. Penso que sophia quis com este conto fazer uma critica á sociedade em que vivemo, em que os interesses egoistas e pessoais de cada um se sobrepõem aos afetos e á amizade pelos outros.
    Mônica representa a maldade, a futilidade, o egoísmo, o interesse e o aproveitamento do ingênuo.
    Desprezou os valores mais importantes enquanto ser humano: a poesia, o amor e a santidade, e isso fez dela uma pessoa vazia e sem interesse, que apesar de poderosa e bem sucedida, não comhece o outro enquanto ser autonomo e digno de respeito sendo assim os outros apenas meios para atingir os seus fins...

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  5. Eu conheço os " Contos exemplares" e estas breves notas sobre o conto estão óptimas, situa-nos no que é a sua essência. Lamentavelmente actual; uma sociedade vazia de tudo e cheia de nada, a sociedade do capitalismo selvagem!

    Cumprimentos

    PN

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